Domingo armado: deus e sorte
Posted in #pronto_desabafei on ago 24th, 2009

[RJ, Laranjeiras 19h, domingo (23)]
Ladrão (L) Julia (J) Polícia (P) Taxista (T)
J: Passeia pela Rua Paissandu levemente sombria, banho recém tomado com celular de R$ 99 na mão. Ao chegar na primeira esquina…
L: [Olha e se aproxima com volume sob a blusa]
L: Sou do Morro Azul (…) passa tudo! [levanta a camisa e mostra arma]
J: [Suspiro profundo de cansaço].’Irmão’, sou trabalhadora, fui assaltada com arma na cabeça mês passado, ‘quebra’ essa pra mim?
L: [Muda o tom, fica menos agressivo, balbucia palavras incompreensíveis]
J: [ Não demonstrando medo] Não precisa mostrar a arma de novo. Você tá com fome? Vou ter dar R$ 28 para você lanchar, beleza?
J: [Abre uma carteira enorme vermelha e pega o dinheiro]
L: [Em silêncio total]
J: Obrigada, vou ver se arrumo um troco por aí para o ônibus…
L: [Consternado/raivoso devolve R$ 2]
J: Obrigada, fica com deus e boa sorte…
L: [Sem reação]
J: [Vai se distanciando lentamente, ainda calma]
L: [Estende o braço e devolve os R$ 20]
J: [Nega com a cabeça e vai embora]

J: [Liga para o 190, conta o incidente e descreve o ladrão com riqueza de detalhes, enquanto avisa para os passantes não seguirem em frente. Um casal que ia para a igreja coliga e solta pérolas: “ Culpa do tóxico!”, “Esse país não tem jeito...esses moleques deviam...morrer!”]
J: [ Se despede dos católicos praticantes e encomenda uma reza para ela e o para o ladrão]
P: [Por telefone] Boa noite, senhora, estamos enviando uma viatura, permaneça no local. J: Senhora, não vou ‘estar permanencendo no local‘, porque é uma rua erma e não pretendo ser assaltada de novo. Queria solicitar uma ronda - em menos de meia hora (se não, não pago meu imposto!) - para pegar o ladrão que está nas redondezas roubando outras pessoas trabalhadoras/cansadas.
P: Senhora, a responsável pela ronda é o Batalhão, nós apenas checamos a ocorrência no - exato - local do crime.
J: Favor, me passe para o ramal de informações da polícia.
P: Pois não senhora, estarei transferindo…
[Cerca de 20 minutos ouvindo música clássica intercaladas com mensagens otimistas nessa linha: “Obrigado por confiar na Polícia Militar do Rio de Janeiro trabalhando em 'prol' da sua segurança”]
Meia hora depois, quatro telefonemas para três números do 2º Batalhão que fica a algumas quadras dalí. Nada. Domingo, dia de futebol, ok. Eles também são filhos de deus e precisam tomar a sagrada cerveja de final do dia.
[Julia liga - novamente - para o setor de informações da polícia e pede os telefones da 9º DP (Catete). Depois de dez minutos, três números de telefone, nenhum contato estabelecido, ela desiste. Pega um táxi e segue para o aniversário da sobrinha de coração no Alto Leblon (locação preferida de Manoel Carlos para novelas globais. Uma viatura em cada esquina, benção!)
J: Conta, semi-nervosa, a história inusitada para o taxista. Ao descer do amarelinho escuta:
T: Fica com deus, boa noite e boa sorte…

P.S: Primeira foto do post: Divulgação/ Relish (marca italiana roupas femininas)
Nossa! Ele foi ladrão-amigo-irmão. Bom post. Mais, mais!
bjs
No Rio de Janeiro todos precisam de “boa sorte” mesmo…
Post maravilhoso, queremos mais!
Infelizmente situações inusitadas como essa acontecem mais vezes do que deveriam… E a polícia, para variar, quase nunca funciona.
Post muito bom!!! Adoreeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiii! Parabéns
Hahahaha, adorei ver a história escrita! Mas a narração ao vivo é impagável! Como já diria a Tia Sultana: “Essa aí tem talento pra coisa!” =)